Alison Marques: de aluno da Esportecoop a jogador do Internacional

Alison, com 18 anos de idade, acaba de assinar contrato com o Internacional de Porto Alegre. Mas nem sempre foi assim. O menino, rejeitado duas vezes no Grêmio e uma vez no Inter, morador do bairro Santa Teresa, filho de uma doméstica, hoje realiza o seu maior sonho.

O gosto pelo futebol veio aos 4 anos. “Ele jogava bola com o pai dentro de casa, jogava nas paredes e em tudo. Eu levava ele na pracinha, para jogar, mas tinha que ser todos os dias. Eu tinha que esconder a bola, mas ele fazia bola de sacola, colocando muitas sacolas uma dentro da outra para jogar”, afirma Bárbara Raquel Marques, mãe do garoto.

Aos 8 anos, o menino jogava na Escolinha do Grêmio, mas devido às muitas dificuldades, a mãe resolveu tirá-lo. Depois de um convite dos seus amigos, Alison, já com 10 anos, foi até o Centro Comunidade George Black, onde realizou os seus primeiros passos, já que no local havia uma escolinha de futebol. No Centro Comunitário George Black, no bairro Medianeira a Esportecoop (Cooperativa de Esportistas do Brasil) desenvolvia projeto de inclusão social com escolinhas de futebol e, em mais nove bairros e vilas de Porto Alegre. Em cada escolinha trabalhavam dois monitores ex atletas de futebol, na época a Cooperativa trabalhou com cerca de 1200 meninos. No George Black, onde Alison começou os seus professores eram o Cedenir Machado e Gaspar Fronteira, ambos ex atletas consagrados da dupla Grenal.

Os dois professores insistiram para que Clóvis Meira, então coordenador do Projeto Social Futebol Clube, visse o menino jogar, pois este se mostrava bastante habilidoso. Após constatar a postura e a qualidade de Alison no campo, o presidente da Esportecoop conversou com a mãe do menino e frisou a importância dele continuar jogando. “Meninos que tinham uma boa qualidade técnica, procurávamos acalentar o sonho de serem jogadores de futebol. Sonhando, a criança deixa de pensar em coisas que não são boas para o futuro, é uma maneira de tentar fugir desse mundo violento causado pelo tráfico de drogas. Então resolvemos ajudar o Alison a desenvolver a sua qualidade técnica. Seria um desperdício perdermos um talento tão promissor, confiando na visão dos monitores resolvemos ajudá-lo” salientou Clóvis Meira.

A partir desse momento, a Cooperativa começou a cuidar do menino. Ele jogava no George Black e na Escolinha do Grêmio do Cristal, mas era sempre exigido que o garoto tivesse um bom desempenho com suas notas na escola.

Antes de chegar na Cooperativa, a mãe de Alison teve muitas dificuldades para alimentar o sonho do filho. Na época em que ele treinava na escolinha do Grêmio, muitas vezes era difícil para ela até ter dinheiro para o ônibus, mas a ajuda financeira vinha da família: do genro, irmão, avó e irmã de Alison. “Eu não tinha como levar ele nos jogos, porque trabalho o dia inteiro, mas meu genro e minha filha levavam ele, algumas vezes de bicicleta, pois não tinha dinheiro da passagem. Minha filha até comprava lanche para ele no mercado, porque não tínhamos dinheiro para comprar o lanche na hora do intervalo, e os meninos que treinavam lá todos compravam na lancheria”, conta a mãe de Alison.

Após conhecer a Esportecoop, Alison recebeu o apoio para ir atrás do seu sonho. Além dos incentivos morais, a direção fornecia chuteira, roupas e rancho, mas sempre com a exigência de ser um bom aluno na escola. Após a escolinha do Grêmio, o garoto jogou no Barra Futebol Clube de Camboriú, Santa Catarina. Depois, a cooperativa o levou para jogar no Clube Ivoti, mais tarde passou pelo Imbituba e Soledade Futebol Clube. Chegou até a fazer testes no Grêmio e no Internacional, mas foi reprovado. Jogando pelo Soledade Futebol Clube chamou a atenção do ex jogador Dorinho olheiro do Inter, que logo percebeu a ótima qualidade técnica do garoto. “O Alison só chegou onde está por causa da mãe, a gente só deu apoio. Eu olho para trás e lembro como ele jogava no meio dos outros, muita gente dizia que não ia dar, porque ele era pequeno, os outros batiam e ele caía, mas eu sabia que ele ia crescer e a qualidade técnica dele só iria aumentar”, afirmou emocionado o presidente da Esportecoop.

Com o apoio da família, da Cooperativa, e por sua persistência, Alison hoje colhe os frutos da sua dedicação. Em março, o garoto assinou contrato profissional com o Internacional e atualmente disputa o campeonato gaúcho da categoria sub-20 .

Bárbara, a mãe de Alison, ressalta que se não fosse a cooperativa, ela já teria desistido, porque é muito difícil sem apoio. O José, auxiliar da Cooperativa, também ajudou muito, mas o Clóvis tomou o espaço do pai do Alison, educando e mostrando o que era errado.

Eu eduquei o Alison como se fosse meu filho, de uma forma rígida, mas sempre dando conselhos, atenção e incentivando”, enfatiza Clóvis.

Hoje, o garoto destaca a importância do apoio recebido: “A Cooperativa foi muito importante, pois nos momentos mais difíceis ela sempre esteve presente me apoiando e me dando forças.”

O garoto ainda almeja voos mais altos: o sonho de jogar nos times da Europa, como o Barcelona, por exemplo. Em meio à rotina de estudos e treinos todos os dias, ele deixa um recado para todos aqueles que desejam seguir carreira no futebol: “Não desista, sempre persista nos seus sonhos mesmo com as dificuldades, uma hora dá tudo certo”.

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